19.2, 224-233, 2006
Classica (Brasil)
O médico como objeto de riso na Antologia Palatina
W A. R J .
ILSON IBEIRO R
Universidade de São Paulo
Brasil
R . Os médicos e alguns aspectos da arte da medicina constituem um tema cô-
ESUMO
mico presente em todos os períodos da literatura grega, a começar pela O riso
Ilíada.
associado a atividades médicas, ainda um tanto restrito durante os Períodos Clássico e
Helenístico, atingiu o apogeu nos epigramas da durante o Período
Antologia Palatina,
Greco-Romano, talvez por influência da latina. Neste artigo, um curto trecho da
satura
literatura egípcia antiga, pequenos trechos da literatura grega clássica e helenística e
uma pequena seleção de epigramas da ilustram os principais recursos
Antologia Palatina
estilísticos e cômicos utilizados por autores antigos para despertar o riso às custas dos
médicos e da medicina.
P -C . Riso; médico; arte da medicina; profissões; sátira; epigrama; Anto-
ALAVRAS HAVE
logia Palatina.
Neste trabalho, parte de uma pesquisa mais ampla sobre a sátira às pro-
fissões na Antigüidade, serão discutidos alguns dos aspectos que ligam o riso
à profissão médica, desde os primórdios da literatura grega até os epigramas
da datados, em sua maioria, dos primeiros séculos de
Antologia Palatina
nossa Era. Serão analisados apenas os epigramas em que certos aspectos da
profissão médica constituem o principal objeto de riso e refletem, de várias
maneiras, expressiva crítica à atuação dos médicos.
A ridicularização das profissões, segundo V. Propp , é apenas uma den-
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tre as diversas maneiras de despertar o riso. Em sua opinião, certas profissões
E-mail: warj@classica.org.br
Artigo recebido em 20/07/2003; aceito para publicação em 11/10/2005.
Membro dos grupos de pesquisa “Estudos sobre o Teatro Antigo”, da Universidade de São
Paulo, e “O trânsito de saberes na Grécia Clássica”, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Este trabalho é um desenvolvimento da comunicação apresentada durante o V Congresso
em Pelotas, setembro de 2003. Expresso aqui meus vivos agradecimentos a Vera
da SBEC
Cecília Machline, da PUC São Paulo, pelas sérias e proveitosas discussões sobre o tema e pelo
auxílio na elaboração da bibliografia, e a Maria Celeste Consolin Dezotti, da FCL-UNESP,
Araraquara, que me revelou os tesouros escondidos da Antologia Palatina.
trad. A.F. Bernardini e H.F. Andrade, São Paulo, Ática, 1992, p. 79-83.
Comicidade e riso,
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O MÉDICO COMO OBJETO DE RISO
são mais satirizáveis do que as outras e o médico, em especial, é ‘uma das
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figuras preferidas dos escritores satíricos do mundo inteiro’. P. Schulten, ci-
tando Will Durant, concorda plenamente e destaca, ainda, que os médicos e
as mulheres são os grupos sociais mais satirizados da história, especialmente
entre os gregos e os romanos . Em épocas mais próximas da nossa, a figura
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do médico ainda é objeto de riso muito popular, como se vê na commedia
italiana, no teatro russo de bonecos e nas comédias de Molière. Riso
dell'arte
e medicina juntaram-se também no humanista e médico François Rabelais,
e em vários
célebre pelas tiradas escatológicas de Gargantua e Pantagruel
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epigramas do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage.
O ancestral mais ilustre da sátira profissional, de origem egípcia e não
grega, é a texto do Médio Império, época da 12ª Dinastia
Sátira dos Ofícios,
(1991-1785 a.C.). Khéti, o autor, relata uma viagem de barco em que um es-
criba, conversando com o filho, compara a profissão de ferreiros, marcenei-
ros, joalheiros, barbeiros e lavradores, entre outros, com a sua. A profissão
médica não foi explicitamente mencionada, talvez porque os médicos egíp-
cios recebessem formação de escriba... O aspecto satírico desse antiquíssimo
texto é controvertido e alguns eruditos, como E. Araújo, lhe conferem apenas
qualidades gnômicas ; M. Lichtheim , no entanto, acredita que o exagero, a
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leveza e o tom complacente das imagens descritas são elementos legitima-
mente satíricos. Eis duas breves passagens em que a intenção de provocar o
riso está bem clara : ‘o lavrador se lamuria mais do que galinha-d'angola e
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grita mais alto que o corvo’ (vi ) e ‘o oleiro cobre-se de lama, embora ainda
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esteja entre os vivos’ (v ).
5
Mais de mil anos depois da o poeta da trans-
Sátira dos Ofícios, Ilíada
mitiu-nos a mais antiga sátira à profissão médica de toda a literatura grega
ἀμύμων ἰητρός,
(Il. 11.596-654). Macáon, filho de Asclépio, ‘médico irre-
V. P recorreu, naturalmente, à palavra “sátira” em seu sentido mais amplo, o de “escrito
2 ROPP
picante, maldizente”, que visa despertar o riso, e não como gênero literário específico. Para
um panorama da palavra “sátira”, ver G.L. H , CPh 22.1,
Satura tota nostra est,
ENDRICKSON
H , trad. A. Guillén, Madrid, Guadarrama, 1969.
42-60, 1927; M. La sátira,
ODGART Social Identities, v.
Physicians, Humor and Therapeutic Laughter in the Ancient World,
3
7, n. 1, 2001.
V.C. M , ‘Conceptos del siglo XVI sobre la risa’, in P.A. P (ed.), Tradiciones
4 ACHLINE ASTRANA
México, Univ. Autónoma
e Intercambios Científicos: Materia Médica, Farmacia y Medicina.
Metropolina, 2000, p. 65-80.
E. A , ‘Sátira das Profissões’, in _______, Escrito para a eternidade: a literatura no
5 RAÚJO Brasília, Ed. UnB, 2000, p. 217-24.
Egito faraônico, v. 1, Berkeley, University of California Press, 1975-80 (reimpr.),
Ancient Egyptian Literature,
6
p. 184 (apud E. Araújo, 2000, p. 218).
A tradução é de E. A , p. 220-1.
Sátira...,
7 RAÚJO 224-233, 2006
19.2,
Classica (Brasil)
226 WILSON A. RIBEIRO JR.
preensível’, havia sido ferido durante o combate; Nestor, um leigo, retira-o
οἴνωι
da refrega, leva-o para sua tenda e cuida dele com ‘vinho de Pramnos’,
Πραμνείωι . Nesse episódio, Nestor mostrou grande competência, tanta que
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Pátroclos, guerreiro e médico, em visita ao nobre colega, se pôs simplesmente
a conversar, sem interferir. Sua intervenção obviamente já não era mais ne-
cessária, pois o Dr. Macáon estava já muito bem cuidado. A passagem, re-
ἰατρέ, θεράπευσον
vestida de fina ironia, é legítima antecessora da sentença
σεαυτόν, ‘médico, cura-te a ti mesmo’, atribuída a Hipócrates e encontrada
no Novo Testamento (Lucas 4.23) já com de provérbio .
status 9
Em Héraclito de Éfeso (Fr. 58) encontramos a primeira crítica direta
οἱ γοῦν ἰατροί, φησὶν ὁ
à profissão médica, matizada de cáustica ironia:
Ἠράκλειτος, τέμνοντες, καίοντες, πάντηι βασανίζοντες κακῶς τοὺς
ἀρρωστοῦντας, ἐπαιτιῶνται μηδέν' ἄξιον μισθὸν λαμβάνειν παρὰ τῶν
αρρωστούντων ταῦτα ἐργαζόμενοι, † τὰ ἀγαθὰ καὶ τὰς νόσους †, ‘Os
médicos, disse Heráclito, quando cortam, queimam e de todos os modos tor-
turam maldosamente os doentes, reclamam que n&atil
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Parigi o cara
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Fiction incontra i medici: medical drama o dramma medico? Dr. House e Grey's Anatomy, due serie a confronto
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Minuscola damascenica o agiopolita o gerosolimitana
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